Ouroboros
exercício em três partes para manter o fôlego narrativo.
3º - A SAÍDA É PELO PALCO
Eu soltei o rabo do bicho. O que me servia de bússola virou âncora.
Não houve clarão, nem ruptura da carne, nem expulsão triunfal. Houve uma mudança quase imperceptível de função. Aquilo que eu chamava de perseguição começou a se comportar como impulso. O frio no estômago, o mesmo frio que me fazia correr, eu reconheci de outro lugar: a coxia.
Abertura de processo de “Você Não Me Pega” - 2025
Talvez o Tiranossauro nunca tenha sido carcereiro, mas motor. Talvez o erro tenha sido interpretar como ameaça o que sempre foi energia bruta demais para caber na vida cotidiana. Se há uma saída, ela não se dá pela boca nem pelo cu desse grande organismo simbólico. Ela se dá pelo palco, esse espaço onde o excesso encontra forma e onde o medo, em vez de me perseguir, precisa atravessar meu corpo para existir.
Frame da videoarte “You Won't Catch Me” - 2025
O palco é superfície. E toda superfície é lugar de impacto. Se ali o medo encontra forma, também encontra plateia. A luz que revela é a mesma que denuncia. O que antes era perseguição íntima transforma-se em matéria pública. O tiranossauro, integrado, cresce sob o foco. Amplificado pela iluminação, ganha contorno, som, textura. E eu me torno responsável por sustentar o peso desse corpo híbrido diante de olhos que esperam coerência, intensidade, entrega.
Abertura de processo de “Você Não Me Pega” - 2025
“Talvez o erro tenha sido interpretar como ameaça o que sempre foi energia bruta demais para caber na vida cotidiana”
Há poder nisso. O poder de manipular o tempo, de suspender respirações alheias, de converter pavor em beleza organizada.
Mas há violência também.
O palco exige carne. Exige que algo seja arrancado do invisível e colocado sob mira. Ao oferecer o monstro, ofereço também a mim. A integração é um novo pacto. Eu cedo espaço e corpo para que o bicho fale. Ele oferece espírito e ânimus à matéria.
Primeiro contato do material com o público: leitura do texto “Se eu nunca quis te matar é porque nunca te amei” postado aqui em 2025
O palco é também um órgão. Seleciona, absorve, processa, devolve. O medo ganha luz, trilha, discurso; aprende a caber em release, em sinopse, em projeto aprovado. Talvez o que me perseguia tenha encontrado, na institucionalização, um intestino maior do que aquele que me engoliu na infância. Um sistema que mastiga experiências e as transforma em circulação simbólica.
Mas enquanto a plateia respira e a máquina cultural processa, algo continua contraindo por dentro. O mesmo movimento peristáltico. A mesma boca ampliada. Muitas entradas. Nenhuma saída evidente.
O bicho cresceu. Eu cresci.
Ele não vai embora. Eu tampouco.
Frame da videoarte “You Won’t Catch Me” - 2025






