Ouroboros
exercício em três partes para manter o fôlego narrativo.
1º O Ponto de Vista da Engolida.
Estou prestes a embarcar em uma aventura. Um passeio selvagem. Vou ceder àquilo que me impõe medo do futuro, que me catapulta do presente e me encarcera em um passado histórico. Por vezes esse passado também é um tanto comum e “logo ali”, um evento semana passada ou um gesto como “deveria ter deixado aquela mensagem sem resposta”.
A aventura se constitui de um processo fisiológico natural, voluntário e autônomo: o ato de engolir.
Vou engolir enquanto sou engolida. Para tal, criei as seguintes regras que correspondem a progressão narrativa:
1- ser engolida e;
2- não irritar o intestino para;
3- ser expelida com dignidade.
Aqui, eu sou a presa. Tudo começa pela boca.
Trago à luz, jogo ao fogo, essa sensação antiga de estar sempre atrás de alguma coisa que é muito maior do que eu e que me escapa. É uma espécie de narrativa de abismo, essa perseguição. Existe um rabo infinito e eu não sei exatamente de quem ele é. Se é meu ou se é do que/de quem me persegue. Enquanto o rabo vem atrás de mim eu também vejo a ponta do rabo à minha frente, a pontinha dele, virando ali a esquina da parede. Conforme eu dou um passo em direção à ele, o rabo encurta de tamanho e desaparece mais um pouco depois da curva.
O que é isso? Esse bicho que vem, que cresce na minha direção, que acelera enquanto eu acelero e busco refúgio na ponta daquele rabo. Aquele rabo ali que me parece ser do próprio bicho que vem atrás e que também está na frente. Vai, mais um passo, mais um passo. Pára de correr de mim, pára de correr atrás de mim. Eu preciso segurar isso aqui, essa é a minha bóia salva-vidas, essa é a resposta do enigma, é o umbigo do bicho. Quanto mais fujo, mais me aproximo do que estou fugindo, mais me torno a própria perseguidora, mais me confundo nessa dinâmica implodida de deglutição aniquiladora selvagem, mais engulo o meu próprio rabo, mais engasgo, mais regurgito, mais me confundo, me fundo, me co(n)fundo, me fundo, me fodo, me fodo, me fodo nessa penetração automática inevitável que é alcançar o centro do enigma por dentro. Pela boca. Que entra pela boca, que não sai pela buceta, que entra pela buceta, que sai pelo rabo. Pelo cu.
Quantos tentáculos possui um pesadelo?
Inevitavelmente sou engolida. O bicho me engole, eu me engulo, ainda segurando a ponta do rabo do bicho que come a si mesmo, que me come enquanto eu seguro seu rabo, que eu como enquanto seguro o rabo dele. O meu próprio rabo, o nosso rabo. Eu e o bicho, um rabo só, uma boca só que engole e que não cospe de volta pra fora. A saída é por outro lugar. A saída é para dentro? Estou dentro, onde é a saída?
Vejo coelhos inteiros, vejo cervos com patas decepadas, vejo cometas, estrelas cadentes, uma casa, carros. Ainda seguro o rabo nas mãos. O rabo agora vem de cima, como um estalactite escorregadio, uma tocha que se ergue, úmido e viscoso como a pele de um sapo. O rabo incha na minha mão com o fluxo de sangue interrompido. Não é desagradável segurá-lo. É estranhamente familiar em meio a rugosidade do intestino, o inchaço do rabo.
Há vida que pulsa. O rabo pulsa. Lateja.
Me aventuro intestino a dentro, por esse órgão-caverna que agora é onde se faz o mundo inteiro. Percebo que todo o mundo está aqui, dentro do mundo inteiro. Reconheço as esquinas, as ruas, estão aqui também os bares, as praças, as Smart Fit. Não estamos iguais, já não somos iguais, estamos, estou caminhando, pé ante pé, e posso perceber e reconhecer a falta, a ausência de reconhecimento. Reconheço sem que me reconheçam de volta. Sem notar que quem está notando está olhando para o que falta, para seus casamentos com suas solidões, seus contratos invisíveis com a superação de performance. O espanto já foi digerido há muito tempo.
Estamos em São Paulo, São Paulo está dentro do intestino do bicho. Um espelho invertido, uma espécie de Stranger Things com farofa, por que o mundo começa no Brasil. O mundo começa bem aqui no Brasil. Eu começo no Rio de Janeiro, eu começo no Maranhão e na Paraíba, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. Eu começo em Realengo e em Bangú. Eu começo e eu não paro de começar, não paro de nascer, é comprido demais nascer, é longo demais nascer - que saco renascer - que saco variar com a Lua. Ela também está no intestino do bicho grosso, no intestino do bicho, no mundo inteiro que cabe na caverna deglutida. Os astros também estão aqui. Seria essa uma deriva kármica?
Que paisagem curiosa.
Dos galhos pendem sapatos órfãos, esses sapatos que ficam pendurados às vezes nas árvores, às vezes nos fios de luz das ruas. Eu nunca pude entender por que de um sapato, geralmente um tênis, ser usado como uma marimba. Não se pega pipa com sapatos. Não se pega nada com sapatos lançados ao tempo.
Sigo minha caminhada a fim de encontrar um ponto de contato em algum par de olhos gêmeos aos meus. Surreais, curiosos, corajosos como os meus, um par de olhos que também esteja segurando a ponta de um rabo-estalactite-pele-de-sapo-latejante como eu seguro feito uma bússola invertida. Ele serve de referência sobre a entrada da caverna, que não é a saída da caverna, entende? O rabo do qual fugi, ao qual me agarrei, aponta para trás. Onde está a saída?
fim da primeira parte




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